Álvaro Moreira
MIEC-ST, Julho 2023

Flecha
            “...NO DIA EM QUE O UNIVERSO MORRER,
NÃO HAVERÁ PASSADO NEM FUTURO...”

Richard Bradley, ao abordar a crise identitária da Arqueologia, no âmbito das Ciências Socias, discute questões de índole filosófica sobre a distinção entre natureza e cultura apontando como resposta mais criativa o alargamento das fronteiras da disciplina enquanto ciência que estuda os vestígios materiais de existências pretéritas – (...) ... by loosening the bounds of archaeology itself, so that the subject is no longer limited to those features that were altered by human activity ... (...) –, tendo por premissa que o espaço não se perspetiva como algo estático, nem como mero suporte de ações económicas, mas sim como uma realidade atuante inseparável das populações que o habitam, sendo continuamente produzido ou percecionado através dos sentidos. Deste modo, espaço não deve ser entendido como mero elemento natural mas sim como construção cultural e social onde os montes, os outeiros, as vertentes, os planaltos, os vales, as rochas, as fendas, os abrigos, as grutas, as nascentes, as cascatas, os rios, os lagos, os campos, os
sons, os ecos, os movimentos dos céus e das águas, os fenómenos meteorológicos, entre outros, são experienciados, vivenciados, explicados e percecionados pelas comunidades e, simultaneamente, intervenientes na estrutura do seu universo cognitivo.

O projeto expositivo Flecha aborda a realidade sul americana, amazónica, na máxima plenitude e significação, propondo um atravessamento e questionamento da sua profunda relação com a humanidade, na sua multiplicidade cultural, assumindo-se como
um manifesto político, que amplifica a disfuncionalidade dialética civilizacional do novo mundo, neste caso particular, do Brasil. Nesse plano, o espaço físico, a “natureza” e o trabalho artístico são entidades em recíproca relação e diálogo com e sobre o Homem, num processo dinâmico de incorporação e desagregação. A sua condição cidadã, na complexa etnogénese de origem, na qual se considera não apenas a segregação física de um determinado grupo culturalmente diferenciado, mas que também abrange processos de transformação social e política que, em termos de definição de identidade, seleção e incorporação criativa de elementos auxiliares, ilustra, de forma paradigmática, que na nossa condição humana não somos apenas nós que habitamos um dado espaço físico, é ele próprio que habita em nós, nos molda e conforma, transformando-nos à medida que também o modificamos. O discurso expositivo desenvolve-se em seis conteúdos formais, com um vocabulário próprio e particular, que estrutur uma mensagem coerente e convergente, mas com gramáticas e soluções estéticas individualizadas e próprias.

Flecha intitula a instalação artística que dá nome à exposição e representa a metáfora que pretende marcar o olhar e a reflexão sobre o horizonte concetual, estético, político, poético da proposta expositiva. Não se trata de uma abordagem literal de índole antropológica mas sim do questionamento do desenvolvimento do homem cultural, no que tange às suas potencialidades criativas e que implica dar ênfase à capacidade de perceber, analisar, sintetizar informações e, a partir daí, elaborar novos conhecimentos que retornem à prática social modificando-a para confrontar e desafiar a vida coletiva normalizada, presentemente aprisionada de uma “autoridade oficial”, produtora de códigos de comportamento que conduzem à homogeneização cultural que caracteriza a sociedade contemporânea, refletida, entre muitos outros domínios, na padronização das expressões estéticas que inibem processos de construção de novas identidades.
À semelhança da paisagem natural dos espaços e das produções escultóricas coetâneas que serviram de referência estética e concetual à escultura/instalação de Mercedes Lachmann, ambos impregnados de forte simbolismo e percecionados como referências intervenientes na estruturação do universo cognitivo das comunidades de então, também na sua proposta se identifica o propósito de construção de um “lugar liminar”, intemporal e transversal, de encontro e de ativação de novos agentes que se pretendem ativos na construção e perceção do mundo contemporâneo.

O dia fora do tempo documenta o ritual xamânico preparado pela artista e pelas mulheres erveiras da Mantiqueira, seguindo práticas femininas ancestrais, na forma de defumador com mais de vinte tipos de ervas medicinais e aromáticas, realizado simbolicamente no dia 25 de julho, o dia fora do tempo, que segundo o calendário Maia, atua como uma pausa interdimensional de renovação entre um ano e o outro, representando uma área espiritual “intermediária” da maior sacralidade e relevância espiritual. A sua composição cénica e prática propiciatória, resgatada de contextos de significações remotas de renovação e purificação espiritual, metaforicamente inscrevem-se em espaços que parecem sugerir que estes cenários se conectam com as propriedades de alguns loci particulares relacionados com o ciclo das águas, com as cosmologias solares e lunares, onde emergem os elementos vitais da natureza e que são essenciais nos ciclos de renovação da vida e da fertilidade, que ter-se-ão mantido simbolicamente ativos e sido apropriados pelas populações ao longo dos tempos. Braz ill, vídeo/performance em que a artista desdobra o nome Brasil, em duas palavra escrevendo sobre uma árvore centenária tombada – BRAZ representando chama, e ILL – palavra em inglês que significa doente, denuncia não só o momento penoso que o seu país politicamente atravessava em 2021, orientado por uma praxis incentivador do desmatamento, das invasões de terras indígenas e do garimpo ilegal, mas também um longo processo de desumanização e destruição contínua da floresta e dos seus “habitantes”, humanos e não-humanos, que em 2014 conheceu um dos episódios mais tenebrosos, com a floresta equatorial da Amazónia a arder a uma escala e intensidade nunca antes vistas. Entre as imagens mais impressivas captadas pelos satélites, que mostravam a enorme extensão das áreas incendiadas e das nuvens de fumo observáveis do espaço, os documentos fotográficos mais exaltantes foram produzidos no terreno por cidadãos comuns, que revelaram a floresta transformada em troncos carbonizados enquanto o mundo assistia, incrédulo e impotente, à irreversível destruição da reserva da biodiversidade da Terra.
Troprizoma conforma um espaço de representação abstrata, dotado de uma sacralidade cosmológica, objetivada nas fases da lua em perpétuo movimento de rotação representando a circularidade da vida. As cápsulas/planetas reveladas em reservatórios
portadores de óleos vitais, de poções xamânicas, identificam a centralidade da natureza na cultura humana desde as comunidades pré-históricas à modernidade. Apesar do abstracionismo da instalação, ordenamento da composição do espaço e a simbologia de
cada elemento, parece sugerir que este cenário se conecta com as propriedades de cada óleo/essência, com os ciclos solares e lunares, provavelmente, representado de forma alegórica os espaços onde os rituais tinham lugar que, seguramente, seriam dotados
de um valor espiritual e impregnados de elementos essenciais aos ciclos da fertilidade humana, agrícola e animal.
Nas composições totémicas – Três partes | Segredo | Fruto – compostas por elementos verticais revestidos de elementos naturais vivificantes como o urucum, ou de esferas portadoras de poções curativas, sente-se a pulsação de um poder de proteção e união com o sagrado que sinaliza uma intensão e necessidade de conter a agressão expressa na composição – Oculto | Princípio e fim | Arraste #01 (#02) / (#06) / (#09) – em que fragmentos de árvores queimadas evidenciam deformações, feridas e abjeções provocados pela ação humana através do fogo.
Flecha constrói um projeto expositivo imbuído de uma mensagem política, que reflete plenamente o temperamento da cidadã/artista que defende a descolonização, a justiça ambiental e política, os direitos humanos e não-humanos da sua geografia de origem. O seu discurso estético suporta preocupações relacionadas com a crise planetária e as desigualdades económicas, sociais, políticas e culturais das comunidades indígenas e não indígenas, devendo, por isso, não ser percecionado a partir do estrito campo das atividades artísticas, mas inscrita nas correntes de pensamento contemporâneo que se dedicam a questionar a situação política e, mais amplamente, nas correntes filosóficas e ideológicas do nosso tempo, como a Ecologia Profunda ou Ecofeminismo.